Tio Vânia ou o retrato de uma família comum

Tio Vânia ou o retrato de uma família comum

Tem os ingredientes necessários para fazer pensar sobre as relações humanas e os efeitos da passagem do tempo. Peça de Tchékhov estreia hoje, no TeCA.

O tempo passa. O chá vai ficando frio, e algo se perdeu pelo meio – ou nunca chegou a ser conquistado. Vânia, o tio Vânia, procura um sentido para uma existência - a sua - que acredita ter sido desperdiçada, e lamenta ter "passado o tempo de uma maneira tão estúpida". O chá já está frio: o tempo não recua.

"O Tio Vânia" (1890), do dramaturgo russo Anton Tchékhov (1860-1904), estreia hoje, quinta-feira, no palco do Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, pelas 21h30. Nuno Carinhas encenou, e a produção resulta de uma parceria entre o Teatro Nacional de S. João (TNSJ) e as companhias portuenses ASSéDIO e Ensemble – Sociedade de Actores.

No elenco, Isabel Alves Costa é a grande surpresa: volta a enfrentar o público 25 anos depois da última entrada em cena. A directora artística do Teatro Rivoli confessa sentir-se "em casa".

Universo familiar disfuncional

"O Tio Vânia" abre as portas de uma casa (algures no interior da Rússia do século XIX) enorme – tem 26 quartos -, mas onde a abundância de espaço parece não ser suficiente para diluir os conflitos de uma família aparentemente disfuncional.

Porém, Nuno Carinhas argumenta que "esta família não é diferente das que hoje em dia são as nossas": "todas as famílias são disfuncionais e não são".

"O Tio Vânia" encerra "anseios, frustrações, esperanças, desejos de modificação e tentativas de fuga, sem que as transformações sejam muito conseguidas", explica o encenador.

Tudo se altera para, no fim, nada mudar. As frustrações insuperáveis, as perdas jamais resgatadas e as relações desgastadas pela incompreensão e por expectativas quase nunca cumpridas arrastam-se na rotina de um quotidiano que já ninguém ousa alterar.

O tio Vânia (João Cardoso) questiona as suas "antigas convicções", o que o leva a opor-se à mãe, Maria Vassílievna (Isabel Alves Costa). Em última análise, o desespero de Vânia leva Elena, a jovem esposa do professor Serebriakov, à reflexão, e esta acaba por concluir que "é muito, muito infeliz".

"Começar com o quê?"

Ainda que procure refúgio na vodka, Vânia é, talvez, a personagem mais lúcida. Da análise retrospectiva que faz à própria vida resulta uma conclusão dolorosa: teve uma existência fértil em enganos e fracassos. A consciência aguda de que nada pode fazer para resgatar o tempo desperdiçado leva-o a uma tentativa, falhada, de suicídio.

Vânia deixa-se corroer pela raiva, pelo enfado de tudo e de nada, numa espécie de desistência. Vê-se reflectido na "juventude desperdiçada" de Elena, a quem ama em vão.

O Vânia "não vê saída", analisa João Cardoso. "Aquilo que lhe proporcionaria uma nova vida seria a Elena, mas ele acha que também ela está a desperdiçar a sua juventude". Por isso, "começar com o quê?", interroga o actor.

As relações entre os quatro membros da família vão oscilando entre "desavenças mesquinhas" e "hostilidades". "Acho que não conseguia viver um mês nesta casa. Asfixiava", vocifera o médico Astrov, enquanto o professor Serebriakov estabelece uma analogia no mínimo mórbida: "esta casa parece um jazigo".

Pelo meio, a sobrinha de Vânia parece funcionar como elemento de equilíbrio, acabando por amparar o pai (o professor Serebriakov), dar ânimo ao tio e tornar-se amiga e confidente da madrasta Elena.

A "simplicidade aparente" da escrita de Tchékhov

"Há uma simplicidade aparente" na escrita de Tchékhov, nota Carinhas. "Não há retóricas, nem discursos extraordinariamente ricos do ponto de vista da linguagem". Porém, o encenador concorda que a obra deixada pelo dramaturgo revela uma escrita profunda, apesar de depurada.

Tchékhov aborda "coisas quotidianas, quase sem importância, e só quando se põe em cena é que se descobre a importância das palavras", argumenta o encenador de "O Tio Vânia".

A peça está em cena até dia 4 de Dezembro, com espectáculos de terça-feira a sábado, às 21h30 e aos domingos, às 16h00.

Ana Correia Costa
Fotos: DR
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