Isabel Alves Costa de volta ao teatro: "Sinto-me em casa"

Após uma ausência de 25 anos, a directora artística do Teatro Rivoli regressa aos palcos com "O Tio Vânia". Confessa-se "muito feliz" e "em casa".

"É muito bom, muito gratificante. É uma equipa fantástica". Isabel Alves Costa disse tudo de um só fôlego - o entusiasmo incontido quase não a deixa recuperar o ritmo normal de respiração. A actriz acabara de se despir da personagem de Maria Vassílievna Voinítskaia, a mãe de Vânia, na peça de Tchékhov "O Tio Vânia", e iniciava assim a conversa com o JPN.

Respira fundo e retoma. O sorriso largo mantém-se: "Sinto-me completamente em casa", confessa. A conversa durou apenas alguns minutos – o suficiente para perceber que o entusiasmo de Isabel Alves Costa vai mais além da alegria de regressar a "casa". É uma espécie de desejo adiado agora cumprido.

Uma porta "encostada"

"O Tio Vânia", em cena no Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, marca o regresso de Isabel Alves Costa, actualmente directora artística do Teatro Rivoli, aos palcos.

"Não foi por acaso que não fiz teatro durante 25 anos: o meu contexto familiar era mais forte do que o contexto que estavam a propor-me", justifica a actriz. "Sabia que não batia a porta, apenas deixava encostada".

Isabel Alves Costa começou a fazer teatro na década de 60, em Paris, onde viria a fundar um grupo de teatro – a Liga Portuguesa do Ensino e da Cultura Popular. De regresso a Portugal, integra o espectáculo "Hoje começa o circo!", de João Lóio, com encenação de João Mota. Pouco depois, é convidada para um trabalho no Teatro da Comuna, em Lisboa, que recusa.

Acredita que tudo tem um tempo exacto para acontecer. Foi assim quando decidiu abandonar os palcos, há 25 anos, altura em que lhe nasceu o filho, e foi assim agora, quando aceitou o convite para regressar. "Foi a altura certa, com o autor certo e com o encenador certo", justifica.

"Nunca fui à procura de nada", assume a actriz. Por isso, e por coerência com esse princípio, Isabel Alves Costa crê que, "quando as coisas acontecem, é porque é a altura de elas acontecerem". "O Tio Vânia" é a prova de que a convicção vingou: "Estou muito, muito feliz", confessa.

Nova entrada em cena é uma incógnita

Foi um "convite inesperado", e talvez por isso não saiba ainda se vai voltar a enfrentar o público em cima de um palco. "Não pensei nisso. Encarei isto como um grande desafio que aconteceu na altura certa da minha vida".

Não descarta, no entanto, a hipótese de voltar a repetir a "experiência", mas só "se acontecer na altura certa e com o contexto certo", ressalva. "Nunca gostei de fazer teatro por fazer".

Isabel Alves Costa faz questão de sublinhar a ordem de razões que a fizeram aceitar o convite: "primeiro, o Nuno Carinhas e, depois, o Tchékhov, que foi sempre um dos meus autores dilectos. É um autor que sempre achei que tinha de haver uma idade certa para o fazer".

Aos actores, "O Tio Vânia" exige um grau de maturidade correspondente à vivência de cada uma das personagens. O actor "precisa de ter vivido" para vestir a pele de Maria Vassílievna, sustenta Isabel Alves Costa. Ela exige uma "experiência na vida real".

Criada a devida distância da mãe do tio Vânia, a actriz traça o perfil psicológico de Maria Vassílievna: "uma personagem autoritária e bastante castradora para o seu filho, porque ele não tem convicções que sejam consequentes".

"É [uma personagem] interessante no meu próprio trajecto pessoal, porque me ajuda a aceitar a idade que tenho. Para o ano faço 60 anos, e é muito apaziguador achar que só posso fazer a Maria Vassílievna porque tenho esta idade. É muito terapêutico", confessa.

Ana Correia Costa
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