Tio Vânia: crise de meia-idade?

João Cardoso – ou Vânia – fala de si. Porque, afinal, “a personagem não existe”. “A personagem sou eu”. “O Tio Vânia” está em cena no TeCA.

“Para mim, a personagem não existe. A personagem sou eu. Eu sou o responsável pela forma como digo as palavras, como transmito a raiva, o ódio, o amor”.

João Cardoso fala da sua personagem - Ivan Petróvitch Voinístski (ou Vânia) – na peça de Tchékhov “O Tio Vânia”. Contudo, será ainda possível que, em palco, seja o Vânia a falar de João Cardoso. Porque, afinal, a personagem “tem de ser apoiada na vivência do actor”.

Encenada por Nuno Carinhas, “O Tio Vânia” está em cena no Teatro Carlos Alberto (TeCA), no Porto, até dia 4 de Dezembro.

“Pode fazer-se o tio Vânia de muitas maneiras diferentes”, sustenta o actor que deu corpo à personagem. Isto porque, para João Cardoso, tudo depende da equipa e da relação que se estabelece entre os actores.

Contudo, defende, “não é possível ‘vestir’ a personagem, porque ela tem de ser apoiada em nós, na nossa vivência. Se eu digo as palavras, tem de ser com a minha força, a minha vivência”, argumenta o actor.

Essa será a “experiência” de que fala Isabel Alves Costa (a mãe de Vânia), e que o encenador Nuno Carinhas corrobora: “sem experiência de vida, é muito difícil encenar este texto”: em jogo está “um sentimento de perda que só se ganha com a idade”.

“Vida desperdiçada”

João Cardoso define Vânia como “um homem com uma crise de meia idade. Ele está entre os 40 e os 50 anos e faz uma espécie de balanço da sua vida. Apercebe-se, então, que muitas coisas que fez não valeram a pena”.

“Todo o seu trabalho não lhe é reconhecido, e apercebe-se que o professor que idolatrava (Serebriakov) é uma pessoa sem valor algum”. Ou seja, “não ficou nada”.

Por outro lado, Vânia “está apaixonado pela mulher do professor, e acha que ela desperdiça a sua juventude com ele”. Entretanto, “entra em conflito com a mãe”.

Além da vodka, também a sobrinha Sónia configura um refúgio ao desespero provocado pela retrospectiva de uma “vida desperdiçada”.

“Aquilo que lhe proporcionaria uma nova vida seria a Elena, mas ele acha que também ela está a desperdiçar a sua juventude”. Vânia “não vê saída”, por isso, “começar com o quê?”, interroga-se João Cardoso.

É a “deixa” perfeita para um desfecho que poderia ser ainda mais trágico. E irreversível: “no quarto acto, há tentativa de suicídio por frustração”, desvenda o actor, porque “Vânia apercebe-se de que não vale a pena viver”.

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