Sparklehorse não desiludem legião de fãs. Ed Harcourt mostra-se mais interessante do que em disco.
No sábado, segundo dia do Festival para Gente Sentada, era visível o frenesim em volta da actuação dos Sparklehorse, claramente os mais esperados, provando que há uma legião de fãs fiéis em Portugal. O que se pode dizer da banda (alternando entre os quatro e cinco elementos, com inclusão de uma guitarra "pedal steel"), é que a solidez e a coesão são as suas características mais marcantes: concentração foi a palavra-chave, a comunicação com o público foi escassa.
Houve momentos marcadamente rock: o festival fugiu ao registo mais folk e propício a actuações a solo que lhe é característico. No entanto, o concerto não deixou de ser intimista, com baladas como "Morning hollow" a passar por terrenos épicos contidos, já perto do "alternative country".
Ao contrário do que seria de esperar, não houve um grande destaque no alinhamento para o último álbum, "Dreamt for Light Years in the Belly of a Mountain": a “beatliana" "Don't Take My Sunshine Away" foi uma das excepções. No primeiro de dois "encores", a muita aplaudida "Gold days" funcionou como chave de ouro numa actuação que não terá defraudado os fãs.
O cancelamento da actuação de Emiliana Torrini, por motivos de saúde, deixou mais espaço a Ed Harcourt, que o aproveitou bem. Soando bem mais consistente e complexo do que em disco, usou em várias músicas o artifício da construção por camadas, "empilhando" loops de guitarra e de percussão gravados ao vivo, contornando assim o facto de actuar a solo.
Quando usava a guitarra como instrumento-base, o inglês fez lembrar Jeff Buckley ou Ryan Adams (como em "The last cigarette"), enquanto que ao piano a comparação imediata é com Rufus Wainwright (ouça-se "This One's for You").
Mas, acima de tudo, Harcourt mostrou ser um polivalente, uma espécie de futebolista que actua bem em qualquer zona do campo: soube ser baladeiro, um pouco rock & roll, evocou os anos 30 ou 40 num velho sample de cordas, passou pelo country-blues e terminou a fazer "barulho".