Conclusão de Helena de Sousa Freitas, que analisou situação em todo o mundo desde 2002, ano em que Manso Preto se recusou a revelar uma fonte em tribunal.
As violações do sigilo profissional dos jornalistas têm-se agravado em todo o mundo desde 2002, ano em que Manso Preto se recusou a revelar ao tribunal a identidade de uma fonte, um direito salvaguardado constitucionalmente. A conclusão é de Helena de Sousa Freitas (na foto), autora de um livro sobre o caso de Manso Preto, para quem a ameaça terrorista e uma "certa preguiça" do poder judicial explicam o aumento do número de casos semelhantes.
O livro "Sigilo Profissional em Risco" (edição MinervaCoimbra) já foi apresentado em Novembro, em Lisboa. Hoje é a vez de Viana do Castelo (16h, Museu Municipal), terra natal de Manso Preto, e amanhã do Porto (16h, na Fnac de Santa Catarina). Manso Preto estará presente nas sessões.
Em 2002, ao abrigo do sigilo profissional, Manso Preto recusou-se a revelar ao tribunal a identidade de uma fonte que lhe garantira a existência de actividades controversas da Polícia Judiciária na área do tráfico de drogas em Aveiro e Setúbal.
A recusa valeu-lhe a detenção e o julgamento pelos crimes de recusa de prestação de depoimento e de desobediência ao tribunal. Foi condenado em Dezembro de 2004 a uma pena de 11 meses de prisão, suspensa por três anos, de que recorreu, sendo absolvido em Outubro de 2005.
A análise nasceu a partir de um trabalho de pós-graduação em Direito da Comunicação Social na Faculdade de Direito de Lisboa. Helena de Sousa Freitas, jornalista da Agência Lusa, analisou um período de quatro anos (de 2002 a 2005) para concluir que a situação está a piorar: nesse período mais de cem jornalistas em todo o mundo foram instados a quebrar o sigilo.
O 11 de Setembro veio "apertar o cerco aos jornalistas", afirma a autora ao JPN. Mas não é só a invocação omnipresente da ameaça terrorista que ataca um instrumento "fundamental" do trabalho jornalístico. "Até certo ponto noto uma certa preguiça do poder judicial em agir pelos seus próprios meios", reflecte.
A facilidade de recorrer à investigação jornalística tem, porém, um reverso: "gera um clima que se alastra a toda a classe" e às próprias fontes. No fim de contas, "é o público que é mais lesado". "É muito difícil fazer jornalismo de qualidade sem a existência do sigilo das fontes", sobretudo na variante de investigação, afirma Helena de Sousa Freitas.
No caso de Manso Preto, constata a autora, a justiça podia ter chegado à fonte sem obrigar o jornalista a falar. Os tribunais muitas vezes não respeitam verdadeiramente o sigilo profissional, nota.
Um caso recente, e "chocante" para Helena de Sousa Freitas, é o de Jorge Van Krieken, jornalista que viu o seu computador apreendido no âmbito da investigação sobre os registos de chamadas telefónicas de várias figuras de Estado apensas ao processo Casa Pia.