Novas regras de cotas da pescada podem arrastar a comunidade piscatória das Caxinas para uma grave crise. Está marcada uma manifestação para quinta-feira em Lisboa.
A maior comunidade piscatória do país, localizada na zona das Caxinas, em Vila do Conde, está revoltada com a decisão do Governo de retirar as cotas existentes da pescada. A medida, posta em prática este mês, impossibilita os pescadores de usarem as cotas que reservaram para os três últimos meses do ano.
Já em Abril, o Executivo tinha reduzido as cotas da pescada e tamboril, medida inserida no Plano Estratégico Nacional para a Pesca de 2007 - 2013 [PDF].
Segundo este plano do Governo, a medida é necessária para "uma gestão dos recursos e do meio marinho mais eficaz, equilibrada e sustentada", justificado "pelo agravamento substancial dos custos com os combustíveis".
Com as novas regras de cotas da pescada estimam-se que sejam afectados mais de 1.000 pescadores só na zona das Caxinas. A cota nacional deverá ser atingida já no final de Outubro, mas para muitas das embarcações inscritas no Plano de Recuperação da Pescada e do Lagostim (PRPL) a cota individual não durou mais de seis meses, visto que foi implementada em Abril deste ano.
Só nas Caxinas podem ser afectados mais de 1.000 pescadoresMuitos pescadores e armadores consideram esta situação injusta. O armador José Aurora explicou ao JPN as consequências desta medida, que leva muitos homens do mar a pensar em abandonar a actividade ou mesmo emigrar para Espanha, França ou Irlanda, onde os pescadores têm mais “regalias” (subsídios para os combustíveis, leis mais justas e igualitárias para todos os pescadores, entre outras).
Segundo os pescadores, a situação é ainda agravada pela autorização do Governo em deixar embarcações espanholas pescarem na Zona Económica Exclusiva (ZEE) Portuguesa, que depois vendem o peixe pescado cá como sendo espanhol.
Muitos pescadores exigem mais atenção ao sector das pescas, que consideram esquecido pelo governo. As principais medidas passam por mudanças no sistema de cotas e pela não obrigatoriedade de trabalhar aos fins-de-semana e subsídios para os combustíveis – Portugal é o único país da União Europeia a não atribuir este tipo de subsídios ao sector das pescas.
Por outro lado, a Associação de Armadores de Pesca do Norte (AAPN) diz que a solução passa pelo abate de mais embarcações (cerca de 60 já no próximo ano), pois só assim é possível haver cotas para todos.
A AAPN, com sede no coração das Caxinas, diz que das 23 embarcações inscritas no PRPL, cerca de metade já ultrapassou a cota individual de pescada, situada a nível nacional nas 1.830 toneladas. A cota de tamboril já foi ultrapassada no dia 27 de Agosto, pelo que está proibida a pesca deste tipo de peixe.
O Plano de Recuperação da Pescada e Lagostim arrancou em 2005, impondo Totais Admissíveis de Captura (TAC) de 22 dias mensais de pesca a nível nacional. Este ano existiu uma redução para 18 dias, com a aplicação dos TAC individuais. Muitos pescadores contestam estas medidas, pois existem muitas embarcações com as mesmas dimensões com TAC diferentes.
Para reivindicar mais direitos para o sector das pescas, o Sindicato dos Trabalhadores das Pescas do Norte, organizou uma manifestação para esta quinta-feira.