Na primeira fase, "algumas soluções não foram totalmente adequadas àquilo que seria de esperar de um sistema de metro de superfície", diz coordenador da proposta da FEUP.
Que filosofia esteve por trás deste estudo e permitiu chegar a estas conclusões?
Este trabalho foi resultado de uma encomenda bastante livre, que é, aliás, o tipo de encomendas que devem ser feitas às universidades. As universidades têm um papel a desempenhar numa disponibilização do máximo conhecimento ao serviço da comunidade, mas não podemos confundir o papel de um centro universitário com o das empresas. Esta encomenda da Metro do Porto tinha características que se adequavam perfeitamente ao papel da universidade, que é pensar.
Foi, portanto, uma reflexão sobre o que deve ser o futuro do metro.
Exactamente. Surge no fim de um ciclo, a primeira fase, antes de uma segunda fase que ninguém sabe muito bem em que condições será feita. A ideia foi não tomar em consideração até alguns compromissos já assumidos e pensar apenas como está a funcionar o metro e se fazia sentido vir a ser alargado e em que medida.
A que conclusões chegaram?
A literatura da especialidade já o apontava, mas nunca imaginávamos que houvesse uma relação tão estreita entre a efectiva utilização do sistema de metro e as características das actividades na sua envolvente. Percebemos como é que o sistema de metro estava a funcionar e usamos exactamente esses critérios para nos ajudar a conceber uma solução geral e global.
A valorização da procura não pode ser perniciosa? O seu colega da FEUP António Perez Babo, por exemplo, diz que o metro deve também construir cidade.
O sistema de metro tem uma função estruturante no território. Não devemos ir apenas atrás da procura, mas temos que ter consciência que quanto mais pessoas utilizam o metro mais sustentável é a área metropolitana do Porto (AMP). Tem que haver um equilíbrio entre o que é a capacidade de estruturação de um território e os seus transportes e o critério da procura.
O que fizemos foi contrabalançar este dois aspectos, tornando explícito que critério seguimos em cada um dos troços que propomos. A equipa, pela sua própria formação, repartia-se entre as áreas dos transportes e do planeamento territorial.
Servir Vila d’Este, onde vivem 17 mil pessoas, demonstra que ainda há muito espaço para a expansão do metro?
Identificámos zonas que não estavam servidas e que tinham todas as condições para virem a ser serviços. Preocupámo-nos com os grandes geradores de tráfego que não estavam incorporados na rede e que, face às suas características de urbanidade, fazia sentido estarem. O metro é um sistema que exige urbanidade. Quando entramos em territórios suburbanos, periurbanos ou rurais, aí existem sistemas de transportes melhores.
Na primeira fase do metro, houve a tentação de chegar a todo o lado?
Não estive envolvido na primeira fase. Agora é fácil criticar. Algumas soluções não foram totalmente adequadas àquilo que seria de esperar de um sistema de metro de superfície, mas havia que justificar o projecto e uma das formas foi torná-lo atractivo do ponto de vista económico. Tirou-se partido de corredores ferroviários existentes. Ao fazer-se isso, reduziu-se significativamente os custos e tornou-se o projecto atractivo.
Foi um mal necessário?
Costumo dizer que foi o pecado original, mas há muitas obras que parece que só se fazem com um pecado original. Não vou criticar essa estratégia.