Porto à deriva: Candidatos criticam "desprezo completo pelos vultos culturais" da cidade
A casa de António Nobre é um dos exemplos de degradação
Foto: Inês Andrade

Porto à deriva: Candidatos criticam "desprezo completo pelos vultos culturais" da cidade

As marcas de património abandonado no Porto são uma realidade no centro histórico. Candidatos lançam críticas à Câmara de Rui Rio e exigem colocação de placas identificativas nos locais.

Para aqueles que percorrem as ruas da zona histórica da Invicta, não é difícil reparar nas casas abandonadas, nos prédios que se desmoronam perante os olhos de quem não quer ver. De uma maneira geral, assiste-se ao "abandono de um conjunto de edifícios que fazem parte da história do Porto pelo facto de fazer parte da história de vultos da cidade", critica Rui Sá, o vereador e candidato da CDU à Câmara portuense.

Reconhecendo que não é competência do município poder tratar de todos esses edifícios, Rui Sá considera existir um "abandono das referências históricas importantes para a cidade". A solução passaria então por "criar um roteiro interessante em torno desses edifícios para conhecimento da história da cidade", adianta.

Também a candidata socialista à presidência da autarquia, Elisa Ferreira, aponta para importância de existir uma harmonia entre a "dimensão cultural e a dimensão turística", autênticos "eixos fundamentais" para uma cidade. Segundo a eurodeputada, este "não foi o caminho seguido até agora e o preço está à vista".

De acordo com João Teixeira Lopes, candidato do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal do Porto (CMP), o que existe na cidade é uma "desconsideração muito forte pela memória". "Nós escolhemos aquilo que queremos lembrar e apagamos muitas vezes aquilo que não queremos lembrar", diz o sociológo, para quem os actos de destruição do património, ou pelo contrário, os actos de conservação e recuperação indicam uma "determinada posição ideológica".

Câmara faz "tábua rasa" à "identidade" do Porto

Teixeira Lopes vai mais longe nas críticas, dizendo que a situação actual "enquadra-se num panorama mais vasto" de "intensíssima degradação daquilo que é o centro histórico da própria cidade e em particular do património edificado".

O candidato bloquista aponta o dedo à CMP que "faz tábua rasa daquilo que é a identidade mais forte do Porto e que lhe permite ser hoje património mundial, atrair turistas e ser uma das cidades europeias mais específicas, porque essa especificidade é o que faz a competitividade entre cidades". Nesse sentido, Teixeira Lopes defende "a criação de itinerários, a valorização dos vultos e dos lugares que fazem parte da criação dessa diferença que se torna competitiva".

Também do Partido Socialista chegam críticas à actuação da CMP. Para Elisa Ferreira, candidata socialista nas autárquicas,"os exemplos de um abandono e de uma falta de cuidado com todo este património sucedem-se, o que corresponde a uma leitura muito restritiva do papel da Câmara e de uma apatia enorme relativamente a todo este património e à função que ele tem de ter num programa de desenvolvimento da Câmara".

A colocação de placas é o "nível zero"

Na opinião de Rui Sá, "é obrigação da Câmara" forçar os senhorios a manter as placas. Segundo o candidato comunista, "um dos casos que tem vindo a ser abordado é o de António Nobre na zona da Foz, em que a placa foi retirada".

"Parece-me que a actuação da CMP é similar à que tem com a actividade cultural na cidade que é de um certo menosprezo, para não dizer o desprezo completo por estes vultos culturais que fazem parte da história, que honram a cidade do Porto e que qualquer cidade civilizada devia procurar acarinhar", adianta Rui Sá.

Teixeira Lopes diz até que "identificar onde as as pessoas nasceram, viveram, fizeram parte do seu percurso...é o grau zero. É o patamar da decência". Também o candidato bloquista diz ser "responsabilidade da CMP obrigar os senhorios a manter as placas". A Câmara deve, "inclusivamente, retirar essas casas se elas não forem recuperadas, se estiverem pura e simplesmente para especulação imobiliária. Mas há casas que são propriedade da própria Câmara e aí a questão ainda é mais grave".

O Porto "está em risco de perder o galardão"

Desejando que a cidade Invicta não perca o galardão de Património Mundial da Humanidade, Teixeira Lopes confessa que existe o "risco de isso acontecer a qualquer momento", pois, diz, a "CMP não respeitou os requisitos mínimos da conservação do centro histórico e o que acontece nesta esfera lesa a lei e a própria estima das pessoas".

Rui Sá é mais crítico e diz mesmo que se começou a "dormir à sombra da bananeira. Para o candidato comunista, a nomeação da UNESCO "deveria ter constituído um instrumento para uma reabilitação ainda mais forte do centro". Ainda assim, também Rui Sá espera que esta previsão não se concretize até porque "o facto de termos hoje uma autarquia que menospreza esse património, não deveria servir para castigar a cidade".

Para Elisa Ferreira, é necessário perceber que "o património cultural e o património construído são peças fundamentais da dinâmica do Porto e são vectores centrais do processo de afirmação da cidade".

O JPN tentou entrar em contacto com a Câmara Municipal do Porto, mas não obteve, em tempo útil, qualquer resposta ou esclarecimento.

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