À margem do património perdido, existem ainda exemplos que contariam a degradação e fazem perdurar a herança deixada por várias personalidades ligadas à história da cultura portuense.
Lar doce lar para alguns, destinos amargos para outros. Apesar de muitas casas de artistas e intelectuais portuenses ainda se encontrarem num limbo quanto ao seu futuro, outras já têm destinos bem definidos. É o que se passa com o número 655 da Rua da Alegria, repouso da violoncelista Guilhermina Suggia entre 1927 até à sua morte em 1950.
Hoje, o lar de Suggia é a delegação do Porto do Instituto de Medicina Tradicional. Na fachada da casa pode ver-se uma placa evocativa, descerrada em 2007, da autoria de Irene Vilar. Mas nem sempre foi assim. Em 2005, a Associação Guilhermina Suggia, presidida por Virgílio Marques, ainda exigia a colocação de uma placa e um fim diferente para o espaço como transformá-lo na Casa-Museu Guilhermina Suggia.
A casa cor-de-rosa alterou, não só a forma, mas também o conteúdo. Costumava ser verde – é por isso, aliás, que o livro de Isabel Millet, filha de Isabel Cerqueira, aluna e testamentária da violoncelista, se chama o "cão da casa verde".
A autora lembra-se bem do jardim que o portão de Arte Nova deixava a descoberto: "A meio do jardim havia um grande relvado e um pequeno lago hexagonal coberto de azulejos e com um chafariz altíssimo. Havia muitas flores, camélias, jarros, rosas, um canteiro de amores-perfeitos, um morangueiro e até havia uma macieira e xuxus. Havia também duas arrecadações e uma delas transformou-se depois, para mim, numa casa de bonecas", revela ao JPN.
O jardim foi reduzido a um quadrado invisível e o portão substituído por um de ferro maciço. A par do portão, também a mudança para vidros opacos nas janelas denuncia que as actividades no seu interior são amantes da discrição. De facto, após ser vendida a um proprietário privado que a alugou a uma empresa denominada Agência Internacional de Modelos, a sala de ensaios e lições musicais de Guilhermina Suggia foi um bordel.
Segundo a biografia de Ana Maria Ferrín, a casa onde viveu Guilhermina Suggia já foi sindicato, oficina, cabeleireiro e casa de prostituição. Após o tiroteio na altura do bordel, a Associação viu a oportunidade de consolidar finalemnte a ideia da Casa-Museu, com a instalação de bibliografia de temas musicais, mas a iniciativa não foi avante.
Existem algumas referências à violoncelista na cidade, no entanto: a Casa da Música dedicou-lhe a maior sala de concertos, a Sala Suggia, em 2008, o Airbus A319 foi baptizado com o seu nome em 2008 e são várias as ruas pelo país que a homenageiam.
O Jardim Botânico do Porto, antigo refúgio da poetisa Sophia de Melo Breyner, é um caso especial. A escritora ainda era viva e já o Jardim fazia as graças de muitos portuenses.
A ideia já vem dos anos 30, mas só em 1952 é que se concretizou. O arquitecto alemão Karl Franz Koepp reformulou a Quinta do Campo Alegre para desenvolver o Jardim Botânico e, nessa altura, já Sophia deixava transparecer nos seus contos a comunhão com os espaços verdejantes.
"O Rapaz de Bronze" ou a "Floresta" são exemplos da influência do actual Jardim Botânico na sua escrita.
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