Mafalda Veleda é conservadora/restauradora de papel, uma especialista entre os poucos da área na região Norte. O JPN foi conhecer o seu atelier e as particularidades da arte que "conserva para proteger".
Mafalda Veleda, 35 anos, porte vaporoso. De flor no cabelo, chega sorridente e pede desculpa pelos cinco minutos de atraso. O atelier cândido respira a luz que a Rua do Bonjardim oferece naquela tarde.
Começa por explicar que a corrente anglo-saxónica que lhe é familiar - após a licenciatura em História de Arte pela FLUP, completou os seus estudos em Inglaterra, em "Conservation" pelo Camberwell College of Arts, London Institute - não contempla a palavra "restauro", algo pejorativo, podendo significar "substituição total". Mafalda explica a diferença das correntes enquanto vai mostrando obras de alguns autores relevantes da área que "conserva para proteger".

À semelhança do processo de vinivultura onde se conservam as vinhas em gelo utilizado na Alemanha e Canadá (denominado "eiswein"), também o papel começa a ser alvo de processos semelhantes, processos esses que visam fundamentalmente os documentos fotográficos.
Mafalda Veleda que, quando estava em Inglaterra, trabalhara na Getty Images, relata um episódio em que Bill Gates, que detém outro " banco de imagens " - a Corbis Images - utilizou antigas minas na Pensilvânia para guardar a colecção fotográfica, deixando de disponibilizar a visualização dos originais aos especialistas da conservação.
Uma das consequências deste processo é o despedimento dos conservadores de papel que trabalhavam na empresa. É com especial ironia que Mafalda conta que, anteriormente, o arquivo fotográfico da Corbis se encontrava em Nova Iorque, um grande centro urbano onde são emitidas elevadas quantidades de monóxido de carbono. Estas condições ambientais, às quais o documento está exposto, tornam-se inimigas da preservação do papel, sendo esse um dos principais motivos que explicam a decisão de Bill Gates.
O processo de conservação do papel também difere bastante das outras áreas, uma vez que o tratamento por via aquosa é um dos passos para todo o processo de conservação (o que, à primeira vista, pode confundir qualquer um). As dificuldades no processo de conservação são imensas e as causas de destruição do papel também.
A área de conservação do papel é a menos desenvolvida em Portugal. A especialista refere, ainda, o elitismo da área, que pretere a conservação da pintura. Ainda assim, Mafalda Veleda já teve oportunidade de tratar obras/documentos de criadores como Vieira da Silva, Picasso, Henrique Pousão, Júlio Pomar, David Goldblatt ou Durval Pereira.